  Interior do Arquivo Histórico, sala de pesquisa e recepção. Fotógrafo: Marilia Daros
 Sala de trabalho, acervo documental. Fotógrafo: Marilia Daros
 Título de Cidadania de Hugo Daros, patrono e idealizador do Arquivo Histórico. Fotógrafo: Marilia Daros
 Hugo Daros e Soely Accorsi Daros em 1984 em seu arquivo, sala de trabalho e acervo pessoal. Fotógrafo desconhecido
 Residência de Hugo Daros onde ele trabalhou e onde hoje se encontra o seu Arquivo Histórico. Fotógrafo: Marilia Daros
 Marilia Daros com a bandeira de Gramado no encontro Raízes em 2009, em Santo Antônio da Patrulha. Fotógrafo:Vera Lúcia Barroso

Todos nós sabemos das brincadeiras que envolvem esta data: 1º de abril. Tenho certeza que a maioria dos que lêem este artigo, já passaram trotes neste dia para, até, seus mais próximos familiares ou melhores amigos. Ninguém escapa daquela gozaçãozinha básica numa data como esta. Não escapa de cair no trote ou de passar o trote.
Acho que foi por isto mesmo que esta data foi escolhida para ser o marco inicial de uma ação que, oficializada, garantiria o término de uma parceria de amizade e gratuidade, para um trabalho pioneiro e comprometido com a verdade e a seriedade. Não que não houvesse comprometimento e seriedade no que já vinha sendo feito 30 anos antes por Hugo Daros, meu pai e exemplo, mas porque, certamente, precisava acontecer um divisor de águas entre a informação amiga e desinteressada, para um trabalho amigo também, mas com responsabilidade social, através de uma empresa.
Como fazer isto.
A empresa que queríamos não tinha a conotação de lucratividade, mas de sustentabilidade. Meu pai já escrevia desde os anos 40 para o Correio do Povo, na Capital do Estado, como correspondente de Gramado. Era professor e por algum tempo foi empresário. Atuava como Tabelião Substituto e amava a literatura. Lia e escrevia. E enquanto isto crescia em conhecimentos e armazenagem de documentos históricos.
Quando Gramado despontou para o turismo, nos anos 40 e 50 do século XX e a imprensa do país precisou de informações, foi nas gavetas da escrivaninha de meu pai e nas gavetas de sua memória pessoal, que encontraram como falar de Gramado corretamente. Foi na documentação guardada dos iniciais eventos locais que as primeiras verbas para novos eventos foram conquistadas. Foi na sua ética parlamentar que muitos políticos se espelharam para montar seus discursos e seus projetos para a comunidade e visitantes. Foi na sua forma gratuita de ser e de oferecer seu conhecimento que nossa família ficou conhecida e respeitada.
Então, como fazer uma empresa lucrativa?
Não era isto que sonhávamos com os sonhos de meu pai. Fizemos uma empresa sem fins lucrativos, cultural, em 1992 e, somos pioneiros no estado do RS em constituir oficialmente um Arquivo Histórico Particular, com disponibilidade de consultas.
Meu pai era amigo de historiadores com Dante Laytano, de jornalistas como Salin Daú Ramayana e Vinicius Bossle; de agentes culturais como Henrique Amábile Sobrinho. Tinha carteira de jornalista e tinha abertura para seus escritos. Quando o Jornal de Gramado surgiu, lá estava Hugo Daros com suas pesquisas e informações idôneas. Então era isto que deveríamos continuar fazendo.
Logo que meu pai faleceu em 1985, recebi a visita de um grande pesquisador que era seu vizinho: Carlos Hunsche. Seu Carlos passou aqui e veio me dar um recado que nunca esqueceria:
- “Seu pai, Marilia, tinha plena certeza de que continuarias o que ele começou e sabia que farias a guarda correta do que ele guardou.” Lembro que me emocionei e que, desde aquele momento, já era 1986, eu não mediria esforços para que isto acontecesse. Mas precisava viver, trabalhar e criar meus três filhos.
A família se reuniu e concordou que podíamos fazer este desejo de meu pai ser concretizado. Meu irmão Dirceu, como Advogado, cuidou da parte jurídica e minha mãe passou a ser a Presidente de honra. O arquivo do pai ficou em sua casa e acabei juntando o que eu já guardara, com as memórias dele. E o acervo se formatou.
Nosso Arquivo Histórico Particular Hugo Daros nunca deu lucro. Viveu sempre dos amigos, das empresas confiantes na história e de empresários que, de alguma forma, poderiam ajudar, com seus produtos, a fomentar as ações culturais que fomos criando. Contou com a confiança de parceria com o poder público por muitos anos, em maior ou menor escala. E isto tudo acontece há 20 anos, oficialmente.
Portanto, o sonho do pai continua vivo, na entrega de nosso espaço familiar para que estudantes, jornalistas, empresários, pessoas comuns e visitantes, encontrem as informações que precisam, com hora marcada. Mas também, vivemos pesquisando o novo, no passado antigo de Gramado e continuamos armazenando o presente para futuras pesquisas. Isto há 20 anos, oficialmente.
Então, o que a realidade de hoje nos proporciona é o entendimento de nossa comunidade de que somos vigilantes do patrimônio cultural de Gramado (hoje já temos este reconhecimento a nível Estadual) e guardiões de documentos que poucos lugares em nosso Estado possuem guardados, mesmo em instituições oficiais municipais.
Vamos continuar resgatando histórias, agradecendo a confiança que em nosso trabalho é depositada e amando o carinho com que somos tratados na nossa comunidade.
Vamos continuar atentos a preservação da memória material e imaterial de Gramado e buscando novos parceiros para podermos atualizar nossos bancos de dados.
Vamos continuar pedindo espaço na imprensa e mídia locais para falar deste lado de Gramado, que é o lado do coração, da emoção, do voluntariado histórico.
Vamos manter o sonho de meu pai aceso e a sua memória, preservada para a posteridade pois ele acreditava, como acredito, que Gramado tem uma longa e linda história a contar.
Então nosso 1º de Abril foi um 1º de Abril diferente, mas que se preservou na seriedade do trabalho e no lúdico que a história pode conter.
Obrigada Gramado, pelo respeito que sempre nos deram e pelo incentivo que todo dia recebemos nas ruas de nossa terra.
Marilia Daros
Diretora de Patrimônio |  | |